Mulheres já fazem 41% das operações com criptoativos: o que esse avanço revela sobre o mercado

Receita mostra que mulheres chegaram a 41% das operações com criptoativos, mas ainda representam fatia menor do capital movimentado.

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O mercado cripto costuma ser retratado como masculino, especulativo e concentrado em poucos perfis. Os dados mais recentes da Receita Federal mostram uma realidade mais complexa. Em 30 de junho de 2026, o órgão divulgou que a participação feminina no número de operações de pessoas físicas com criptoativos chegou a 40,95% em janeiro de 2024, depois de partir de 11,34% em agosto de 2019.

O dado é forte porque mostra mudança real de presença. Ao mesmo tempo, a própria Receita faz um contraponto decisivo: esse avanço no número de operações não se traduz na mesma medida em participação no capital movimentado. Em 2025, as mulheres responderam por algo perto de 12,88% do valor declarado, apesar de representarem quase 30% do número de operações em dezembro daquele ano.

Esse contraste transforma a pauta em algo mais interessante do que um simples “mais mulheres chegaram ao mercado”. O que está em jogo é entender como a inclusão avança, mas ainda de forma desigual em volume financeiro.

O que a Receita divulgou

Segundo a Receita Federal, a participação feminina no total de operações com criptoativos realizadas por pessoas físicas passou de 11,34% em agosto de 2019 para 29,96% em dezembro de 2025, com pico de 40,95% em janeiro de 2024.

Ao consolidar os dados por ano, o retrato fica ainda mais claro:

  • média de 11,2% em 2019
  • média de 37,6% em 2024
  • recuo para 28,3% em 2025

Isso indica três movimentos ao mesmo tempo:

  • crescimento forte a partir de 2022
  • auge no início de 2024
  • acomodação posterior, ainda em patamar muito superior ao do início da série

O dado mais importante não é só o avanço

O avanço chama atenção, mas a diferença entre número de operações e valor movimentado talvez seja ainda mais reveladora.

A Receita informou que, enquanto a presença feminina no número de operações cresceu muito, a participação no valor total declarado ficou relativamente estável em faixa mais baixa, encerrando 2025 em 12,88%. Na média do período, as mulheres responderam por cerca de 13,8% do valor movimentado.

Traduzindo: mais mulheres entraram, operaram mais e ocuparam espaço crescente. Mas os maiores montantes continuam concentrados de forma bem mais masculina.

O que esse descompasso sugere

A leitura mais provável é que o ingresso feminino avançou com mais força na base de participação do que no tamanho médio do capital por operação.

A própria Receita aponta que esse descompasso sugere valor médio por operação menor entre mulheres do que entre homens. Isso pode refletir vários fatores ao mesmo tempo:

  • entrada mais recente no mercado
  • maior cautela no tamanho das exposições
  • renda média diferente
  • perfil de risco distinto
  • uso do mercado com objetivos menos agressivos

Sem cair em estereótipo, o dado permite uma leitura simples: participação cresceu muito, mas a concentração de capital ainda não acompanhou o mesmo ritmo.

Por que essa notícia importa para além do nicho cripto

Porque ela fala de comportamento econômico, inclusão financeira e mudança de perfil em um setor que cresceu em relevância regulatória no Brasil.

Nos últimos anos, o país saiu da fase em que cripto era visto apenas como assunto marginal e entrou numa etapa de maior institucionalização, com regras de declaração, integração a padrões internacionais e mais atenção da Receita Federal.

Quando a composição do público muda dentro desse ambiente, o mercado muda junto.

O avanço começou a acelerar em 2022

A série descrita pela Receita mostra que, entre 2019 e 2021, a participação feminina no número de operações ficou relativamente estável, na casa de 10% a 12%. O salto veio a partir de 2022, ganhou força em 2023 e atingiu pico no início de 2024.

Depois disso, houve acomodação, com estabilização na faixa de 28% a 30%.

Esse comportamento sugere que a expansão não foi um episódio pontual, mas parte de uma abertura mais estrutural do mercado. O recuo posterior não apaga a mudança. Apenas mostra que o pico foi seguido por normalização em nível ainda elevado frente à série histórica.

O que isso revela sobre o mercado cripto brasileiro

Revela pelo menos quatro coisas.

1. O mercado ficou mais diverso

A presença feminina deixou de ser residual e passou a ter peso estatístico relevante no número de operações.

2. A entrada foi maior do que a redistribuição de capital

Mais gente entrou, mas o volume financeiro ainda segue concentrado.

3. O setor amadureceu institucionalmente

A própria notícia relaciona a evolução dos dados à construção da DeCripto, nova obrigação alinhada ao padrão internacional da OCDE.

4. Inclusão não significa simetria automática

Participar mais não significa, no curto prazo, mover o mesmo capital ou ocupar a mesma posição econômica dentro do mercado.

Como a DeCripto aparece nessa discussão

A Receita também conectou a pauta ao processo de construção da Declaração de Criptoativos (DeCripto), instituída pela Instrução Normativa RFB nº 2.291/2025. Segundo o órgão, a nova declaração foi desenvolvida em diálogo com a sociedade, e a participação feminina esteve presente tanto na equipe técnica da Receita quanto entre representantes do mercado.

Esse trecho da notícia adiciona uma camada institucional interessante: a presença feminina cresceu não apenas como usuária do mercado, mas também no desenho das regras que agora organizam esse ambiente com mais transparência.

O que o dado não autoriza dizer

Também é importante evitar exageros.

Não dá para concluir, só com esse levantamento, que o mercado cripto se tornou equilibrado entre homens e mulheres. Os próprios números mostram que a assimetria de capital segue forte.

Também não dá para dizer que a participação feminina está em trajetória linear de alta contínua, já que houve acomodação em 2025. O mais correto é afirmar que houve salto estrutural relevante, ainda que com perda de fôlego depois do pico.

O que empresas e plataformas deveriam ler nesses números

Quem opera nesse mercado deveria enxergar pelo menos três recados:

  • o público ficou mais diverso
  • educação financeira e comunicação não podem seguir desenhadas para um único perfil tradicional
  • inclusão real exige olhar não apenas quem opera, mas em que condições opera

Em outras palavras, aumentar base é importante. Entender desigualdade dentro da base é ainda mais importante.

O que isso diz sobre inclusão financeira digital

A notícia também serve como termômetro mais amplo da digitalização financeira no Brasil. Criptoativos, goste-se ou não do setor, fazem parte desse ecossistema de experimentação, risco, investimento e circulação de novos instrumentos.

Quando mais mulheres entram nesse ambiente, há um sinal de abertura. Quando o valor movimentado continua mais concentrado, há sinal de desigualdade persistente.

As duas coisas podem ser verdade ao mesmo tempo. E são.

O erro mais comum ao ler essa pauta

O erro mais comum é resumir tudo a um slogan celebratório ou a uma crítica rasa.

Nem “as mulheres dominaram o mercado cripto”, nem “nada mudou de verdade”. O que mudou foi relevante, mas incompleto. Houve avanço forte na presença operacional, sem equivalência proporcional em capital movimentado.

Essa nuance é justamente o que torna a notícia útil.

O que vale acompanhar daqui para frente

Os próximos sinais importantes serão:

  • se a participação feminina volta a subir após a acomodação de 2025
  • se a fatia no valor movimentado cresce de forma mais consistente
  • como a institucionalização regulatória afeta o perfil do mercado
  • se plataformas e agentes financeiros adaptam linguagem, produto e educação para uma base mais diversa

No fim, essa é uma pauta sobre cripto, mas também sobre acesso, perfil econômico e desigualdade dentro da inclusão. O mercado abriu mais a porta. A questão agora é saber quem consegue entrar, permanecer e ganhar escala de verdade.

Perguntas frequentes sobre a participação feminina no mercado de criptoativos

O que a Receita Federal divulgou?

Que a participação feminina no número de operações com criptoativos feitas por pessoas físicas chegou a 40,95% no pico de janeiro de 2024.

Qual era essa participação no início da série?

Segundo a Receita, era de 11,34% em agosto de 2019.

As mulheres também movimentam a mesma proporção do capital?

Não. A notícia informa que a participação feminina nos valores declarados ficou bem abaixo disso, em torno de 12,88% no fim de 2025.

O que isso significa na prática?

Que mais mulheres passaram a operar criptoativos, mas o volume financeiro movimentado por elas ainda é proporcionalmente menor.

Quando o crescimento acelerou?

A série mostra aceleração a partir de 2022, com auge no início de 2024 e acomodação em 2025.

Isso quer dizer que o mercado ficou equilibrado entre homens e mulheres?

Ainda não. A presença operacional cresceu muito, mas a concentração de capital continua bastante desigual.

Qual a relação com a DeCripto?

A Receita conecta a pauta ao processo de institucionalização do mercado e à criação da nova declaração de criptoativos, alinhada ao padrão da OCDE.

Por que esse dado é relevante fora do nicho cripto?

Porque ele fala de inclusão financeira digital, comportamento econômico e mudança de perfil em um mercado cada vez mais regulado e observado pelo Estado.

O dado sobre participação feminina vale justamente porque ele mostra avanço e limite ao mesmo tempo. A porta abriu mais, mas o tamanho do espaço ocupado dentro do mercado ainda é bem desigual.

Em resumo

A Receita Federal mostrou que a participação feminina nas operações com criptoativos cresceu fortemente, saindo de 11,34% em 2019 para pico de 40,95% em janeiro de 2024. Mesmo assim, a fatia no valor movimentado permaneceu bem menor, perto de 13%. O mercado ficou mais diverso, mas a desigualdade de capital continua sendo a parte mais importante da história.

Referências

  • Ministério da Fazenda: https://www.gov.br/fazenda/pt-br/assuntos/noticias/2026/junho/mulheres-ampliam-presenca-nas-operacoes-com-criptoativos-atingindo-41-do-total-de-transacoes-em-2024